O peso de dar conta de tudo: quando até cuidar de si cansa
- Laura Helena Martins
- 1 de jul. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 31 de jul. de 2025
O peso de dar conta de tudo: quando até o autocuidado vira obrigação
Você sente que precisa estar sempre funcionando? Produzindo, resolvendo, respondendo, entregando, cuidando dos outros — e ainda dando conta de cuidar de si? Mesmo quando tenta descansar, vem a culpa. Mesmo quando para, sente que está atrasado. E mesmo quando se cuida, sente que não é suficiente.
Essa sensação de estar sobrecarregado com a ideia de dar conta de tudo é cada vez mais comum. E o que antes era apenas sobre trabalho ou responsabilidades externas, agora também envolve a exigência de “autogerir” as próprias emoções, saúde mental, corpo, produtividade, hábitos... tudo.
Neste texto, vamos refletir sobre essa cobrança silenciosa, mas constante — inclusive sobre o uso distorcido da ideia de autocuidado — a partir de uma perspectiva fenomenológico-existencial. Vamos pensar por que essa lógica pode levar ao adoecimento e como a psicoterapia pode ser um espaço real de pausa, sem performance.
Quando a vida vira um checklist: produtividade até no descanso
A cultura atual transformou quase tudo em meta: o sono precisa ser “de qualidade”, a alimentação precisa ser funcional, a mente precisa estar sempre positiva, e o tempo livre... produtivo.
Até o que deveria ser leve — como o autocuidado — virou mais um item da lista. E, se não for feito do “jeito certo”, vira culpa.
Alguns sinais dessa sobrecarga emocional:
Sensação constante de que está “devendo” algo;
Culpa por descansar, por não render, ou por não conseguir cuidar de si “como deveria”;
Ansiedade e esgotamento mesmo fazendo tudo “certo”;
Perda de prazer, espontaneidade e conexão consigo.
É como se o cuidado com a saúde mental também tivesse virado mais uma tarefa a ser performada — e não vivida.

Fenomenologia-existencial: cuidar de si não é se obrigar a se resolver
Na abordagem fenomenológico-existencial, sofrimento não é um problema a ser eliminado com um passo a passo. É um modo de estar no mundo que merece escuta, não correção.
Quando você transforma o autocuidado em mais uma cobrança — mais um lugar em que precisa “acertar” — corre o risco de se afastar do que realmente precisa. O cuidado vira vigilância, e o descanso vira desempenho.
Cuidar de si, nesse olhar, não é se exigir estar bem o tempo todo. É se permitir sentir, parar, nomear o que dói e, sobretudo, não se apressar para se “consertar”.
Você está se cuidando... ou se cobrando por não se cuidar “direito”?
Algumas perguntas para refletir:
O que você chama de “autocuidado” tem aliviado ou aumentado sua pressão interna?
Você se permite pausar sem culpa?
Descansar ainda é descanso quando se transforma em obrigação?
O peso de dar conta de tudo não se resolve com mais tarefas. Se transforma quando você começa a olhar com honestidade para o que está sustentando — e por quê.
Psicoterapia: um espaço sem metas, onde você pode apenas ser
A psicoterapia, ao contrário de muitos discursos sobre “autoajuda rápida”, não exige que você seja funcional, positivo ou produtivo. Ela oferece um espaço onde você pode simplesmente existir, ser escutado e se escutar — mesmo que não saiba por onde começar.
Com o tempo, a terapia pode te ajudar a:
Compreender o que está por trás da sobrecarga que sente;
Diminuir a autocrítica e o excesso de exigência;
Reconstruir um ritmo mais humano e real para a sua vida;
Cuidar de si com liberdade, não com cobrança.
Você não precisa dar conta de tudo para merecer cuidado
Talvez o que você precise agora não seja fazer mais — mas fazer menos. Diminuir o barulho. Desapertar os nós. Parar de tentar “dar conta” até do descanso.
A psicoterapia pode ser esse espaço onde você não precisa se provar. Um lugar onde até o não saber é bem-vindo. Onde o cuidado não vem com exigência, mas com escuta.


